A TAXA DE JUROS E A ADMINISTRAÇÃO DE EMPRESAS.

CONSIDERAÇÕES ACADÊMICAS SOBRE ADMINISTRAÇÃO – CASAD 01


A Administração, hoje entendida como arte e ciência, remonta aos primódios da civilização.

A primeira pessoa a exercer uma das funções da Administracão de que se tem notícia na história da humanidade foi Jetro, que se dirigiu a Moisés, o grande legislador de Israel, com as seguintes palavras: Não é certo o que você está fazendo… você não vai conseguir fazer isso sozinho.

Mas como se atreveu a falar dessa forma e com que autoridade fez isso? Jetro era sogro de Moisés, e quis dizer que ele não seria capaz de liderar, aconselhar e exercer julgamento sobre o numeroso povo de Israel sem a ajuda de outros líderes (Ex 18.17-18). A autoridade de Jetro vinha de sua investidura, uma vez que a Bíblia o apresenta como sacerdote de Midiã.

Êxodo 18.13-23 descreve a sabedoria de Jetro e sua habilidade administrativa: primeiro, Jetro avaliou o exaustivo sistema de trabalho de Moisés (v. 13); segundo, ele permitiu que Moisés explicasse o sistema de liderança dele (v. 14-16); terceiro, ele explicou a Moisés as deficiências de seu trabalho e as consequências que trariam a ele (v. 17-18); finalmente, Jetro lhe aconselhou como estruturar uma liderança eficiente (v. 19-23).

Uma revisita rápida à Teoria Geral de Administração, nos remete, após um “gap” temporal, ou um interregno de séculos, aos formatadores da Ciência da Administração, tal como se apresenta hodiernamente, com o concurso dos chamados Engenheiros da Administração, posto que em sua grande maioria eram engenheiros industriais, que cuidavam da produção em escala de bens e prestação de serviços, no início da revolução industrial.

Detre eles destacam-se:

Frederick Winslow Taylor - Engenheiro mecânico americano (1856-1915) que criou a Teoria da Administração Científica, também conhecida como Taylorismo.

Jules Henri Fayol - foi o criador da Teoria Clássica da Administração. Ele afirmava que administrar era um processo de tomar decisões e que essas decisões se agrupavam em 5 categorias: planejar, organizar, comandar, coordenar e controlar. Além disso, ele deixou como contribuição para a Administração os “14 princípios de Fayol”, que atuam como um direcionamento para os gestores, de como eles devem desenvolver as suas atividades. Fayol exerceu um papel fundamental para o desenvolvimento da administração como ciência.

Idalberto Chiavenato - Considerado o pai dos Recursos Humanos, é um nome de muito destaque em administração no Brasil e no mundo. Um dos motivos para ser considerado uma referência são as suas contribuições literárias que, ao todo, somam cerca de 30 livros publicados.

Peter Drucker - foi um visionário que mudou os rumos da administração no mundo, o que lhe conferiu o título de pai da Administração Moderna. Duas de suas maiores contribuições para a administração foram: 1) A ideia da “gestão descentralizada”, que promovia a autonomia dos setores para obter maior rapidez das atividades e 2) O método de “Administração por Objetivos”, que tinha como objetivo fazer com que os líderes e seus liderados criassem juntos os objetivos a serem alcançados.

Vários outros autores se dedicaram à Ciencia da Administração, criando um arcabouço sólido e disseminado através de cursos de graduação e pós-graduação que ensinam como exercer na plenitude e com proficiência a profissão de Administrador, lançando mão das várias ferramentas para auxiliar na condução dos trabalhos nas organizações, quer sejam públicas ou privadas, desde a aplicação do conceito das categorias atuais de decisão, o PODC – Planejar, Organizar, Dirigir e Controlar, e explicitando só o planejameneto temos:

Princípios gerais do planejamento; Tipos de filosofia de planejamento: Planejamento conservador ou defensivo; Planejamento otimizante ou analítico; Planejamento adaptativo, prospectivo ou ofensivo; O processo de planejamento; Os componentes do plano; Fatores críticos de sucesso; Benchmarking. Dimensões do planejamento. Benefícios do planejamento Tipos de planejamento: Planejamento estratégico: Planejamento de cenários; Abordagens da construção de cenários; Abordagem projetiva; Abordagem prospectiva; Tipos de cenários; Valores; Diagnóstico institucional/estratégico; Definição de questões, objetivos e estratégias; Objetivos, metas e estratégias; Estratégias segundo Ansoff; Estratégias segundo Porter; A matriz de Stevenson; Planejamento tático; Planejamento operacional.

Vários outros autores se dedicaram ao desenvolvimento da Ciência e Arte da Administração até chegar aos conceitos modernos de Gestão.

Qualquer negócio, seja um pequeno comércio, uma pequena fábrica, um empreendimento, por menor que seja, ou um grande conglomerado empresarial, as chamadas enterprise, que se dediquem a prestar serviços ou disponibilizar produtos os mais variados possíveis, com utilização de tecnologia de ponta, necessitam de Administração profisional para seu desenvolvimento e crescimento. Contudo necessitam principalmente de recursos financeiros para remunerar os recursos humanos e arcar com os custos dos fatores de produção, tais como materiais a serem trabalhados, e os produtos elaborados e semi-acabados. Além de aquisição ou desenvolvimento de tecnologias para aplicação na produção de bens ou nos serviços que serão disponibilizados.

Surgi então o grande gargalo da Administração, a necessidade dos recursos financeiros para fazer face aos custos de produção e à prestação de serviços.

Os empreendedores não os tendo, buscam os recursos financeiros no mercado de capitais, ou mesmo tendo-os, ao utilizar seus recursos próprios, pelo princípio do custo de oportunidade, têm que ter em mente como se dará a remuneração do capital empregado. Neste momento se faz necessária a definição dos juros remuneratórios dos recursos financeiros aplicados aos fatores de produção.

É neste exato momento que ocorre o crucial processo decisório de, detendo recursos financeiros, empreender ou utilizar o capital para empregá-lo no mercado financeiro e receber os juros, pelo emprego do capital por terceiros, que tenham ideias mas não possuam capital próprio.Essa é a grande batalha pelo crescimento das nações. Como bem sabemos, dinheiro não nasce em árvores, mas decorre do árduo trabalho exercido, quer seja na lavoura, na pecuária, na exploração de minérios, na produção de energia, de origem fóssil ou renovável, ou ainda no desenvolvimento de produtos ou criação de valores com a prestação de serviços.

O grande empresário Antônio Ermírio de Moraes, dono do grupo Votorantim, referindo-se aos juros escorchantes praticados na sua época no mercado financeiro noturno, o “overnight”; onde o capital oriundo de negociações com títulos públicos pernoitava nas contas do governo, promovendo lucros aos rentistas, assim entendidos aqueles que viviam de rendas do capital empregado, o que promovia rendimentos fabulosos; dizia que não se podia viver da renda dos títulos, já prevendo que em algum momento o dinheiro viraria pó, uma vez que não resultava na produção de bens e prestação de serviços, que é o que efetivamente gera a riqueza das nações. Dizia, ainda, que não se podia comer sanduiche de ORTN, as famosas obrigações reajustáveis do tesouro nacional, numa crítica fundada aos que pretendiam usufruir de aplicações sem gerar bem algum ou qualquer prestação de serviços. Era a farra do dinheiro pelo dinheiro, a sem produção subsequente.

Os juros têm então esse condão de, a par de propiciar os recurso financeiros necessários ao sistema produtivo, por ser o pagamento do aluguel do dinheiro, não implicar diretamente na produção de bens e prestação de serviços, quando entra na ciranda financeira da aplicação por aplicação, sem gerar riquezas, que ao longo do tempo erodirá os recursos financeiros por desvalorização pela não existência de lastro real do labor associado.

Dessa forma, em não havendo produção ou prestação de serviços em quantidade suficiente para atender à demanda da população, ocorrerá escassez de bens, produtos e de prestação de serviços, o que gerará inflação, não de demanda, mas de escassez.

Como é de domínio dos que se dedicam ao estudo das ciências econômicas, a inflação de demanda é combatida com o aumento de juros por parte do governo através da aplicação de política monetária, creditícia e cambial, estabelecida pelo Banco Central. Isso quando ocorre pressão de demanda, cujo reflexo é o aumento generalizado de preços, na definição clássica de inflação.

Porém, a inflação que por hora vivenciamos é de escassez, em que não há recursos nas mãos dos empreendedores, que necessitam tomar empréstimos a juros aviltantes, implicando em quebradeira das empresas, com a consequente redução de empregos, de produção de bens e de prestação de serviços, por ausência de fatores de produção e de empreendedores, num círculo vicioso.

Sendo, portanto, injustificável o aumento da taxa de juros a pretexto de reduzir a inflação de demanda, posto que a inflação existente é oriunda de escassez de produtos e de serviços disponibilizados, exatamente pela falta de capital com precificação justa. Destarte, pela pouca oferta, os preços tendem a subir, não por demada, uma vez que esta se encontra reprimida, a população quer consumir, mas não tendo renda, a efetivaçao da aquisição fica prejudicada.

O não consumo gera redução dos negócios, que alimenta a não geração de renda. Entretanto, os rentistas, que acumulam recursos na ciranda financeira e detêm poder e influência no Governo, não permitem a mudança dos paradigmas axiomáticos da política econômica, por estarem satisfeitos com o “status quo”, situação lhes é vantajosa.

JEAN SARAIVA*

*CLESIO JEAN DE ALMEIDA SARAIVA,
ADMINISTRADOR, ENGENHEIRO CIVIL, MESTRE EM ECONOMIA, MEMBRO DA ACADEMIA CEARENSE DE ADMINISTRAÇÃO – ACAD.