Em complemento ao artigo intitulado “O que a Administração pode fazer por você” publicado na série CONSIDERAÇÕES ACADÊMICAS SOBRE ADMINISTRAÇÃO – CASAD, segue o texto que li quando fui eleito pelos colegas como orador da turma de Mestrado em Economia.
Quis o destino que recaísse sobre a minha pessoa a honrosa incumbência de ser escolhido orador da turma do Mestrado em Economia realizado no CAEN/UFC, templo do saber, catedral do conhecimento econômico do estado do Ceará.
Catedral, palavra que a mim lembra sonho, sonho que para muitos seria devaneio, posto que sonhado por um menino pobre, filho de um pequeno comerciante do Mercado Central, que já exercia trabalho produtivo desde tenra idade, 11, 12 anos. Que auxiliava, eventualmente, a um tio, que fugindo do desemprego no interior do Estado, quais tantos outros Nordestinos, instalara-se na calçada defronte à lateral sul da igreja da Sé, entre os Mercados Central e São José, na chamada pedra, a vender verduras ou cheiro verde, coentro e cebolinha.
Foi nesta condição que tive conhecimento da Engenharia, o ano era o de 1969, a Catedral da Sé estava em construção e segundo soube, por Engenheiro, sonhei sê-lo. Mas como um eventual auxiliar de verdureiro ousar sonhar ser Engenheiro? Era puro devaneio.
Iniciaram-se os anos setenta, fui promovido a Office-boy, trabalhava no Moinho Fortaleza, do Grupo J. Macedo, isso aos 13 anos de idade, com registro em Carteira Profissional, que não tinha a cor azul, da mudança, mas a cor verde, da esperança. Neste primeiro emprego oficial, ao conhecer os silos, os pavimentos tipos, que suportavam as máquinas, que moíam o trigo, formando a farinha, que formava o pão que sustenta a vida, novamente me veio o devaneio. Quem fez isto? Foi o Engenheiro! Tornei a querer sê-lo. Mas como ousar tanto, uma vez que trabalhava de sol a sol, saindo de casa às 5 horas da manhã e retornando à casa por volta da meia noite? Como me formar em Engenharia, se após um dia inteiro de trabalho duro, servindo café, levando documentos, varrendo o chão, levando carão - era menino, ainda, e brincalhão - estudava a noite? Chegava à escola, após enfrentar um ônibus superlotado, literalmente moído, retornando para casa após as aulas, exausto e sonolento, enfrentando outra lotação, sem poder dormir no ônibus, para não passar da parada de descida, senão chegaria em casa após à meia noite e tinha de levantar às quatro e meia da madrugada, para sair de casa às cinco da manhã, para bater o ponto antes das seis e meia e começar tudo de novo. Engenharia era sonho impossível, pura ilusão, mero devaneio.
Veio a maioridade, com ela o período de prestar o serviço militar e o vestibular, saindo do emprego prestei vestibular, não para Engenharia, não tive coragem, mas para Administração de Empresas, na UECE, o ano era o de 1976. Ingressando na faculdade com a esperança de um melhor porvir e com o advento do crédito educativo, que me propiciou ser estudante profissional, ousei sim, nesta condição, sonhar novamente com a Engenharia.
Manifesta-se o destino, não havendo vagas para Engenharia Civil, naquele vestibular de meio de ano, inscrevi-me para Medicina, era só para testar se entrava e era o curso que tinha o maior número de vagas, a exceção do curso de Engenharia Agronômica, que eu não sabia direito do que se tratava. Ao refletir que era o curso que tinha o maior número de vagas e era curso de Engenharia, rasguei a ficha de inscrição em Medicina, prestei vestibular para a desconhecida Engenharia Agronômica e entrei, classificado-me em quinto lugar.
Foi neste curso que tive a honra, o privilégio e a alegria de ter sido aluno do Professor Prisco Bezerra, um dos melhores mestres que já tive em minha vida, e já tive muitos bons mestres nesta minha saga em busca de educação. Dele guardo, até hoje, ótimas lembranças das aulas de Taxonomia Vegetal, eram magníficas, prazerosas, pura diversão adquirir aqueles conhecimentos. Foi, principalmente, por cursar Agronomia, que conheci a minha esposa, que era amiga de uma colega daquele curso e que nos apresentou. Tivesse eu cursado Medicina ou ingressado logo na Engenharia Civil e não a teria desposado, sequer a teria conhecido, ela me deu quatro lindos rebentos, alguns alentos e outros acalentos.
Foi, também, no Curso de Agronomia que tive outro professor, que não convém declinar o nome, que ao dar uma aula, em substituição ao titular da cadeira de Agricultura III, se me não falha a memória, pois cheguei a cumprir mais de 60% dos créditos do curso, cometeu um ato infeliz. Ao mostrar imagens do Açude Orós, teceu o seguinte comentário, numa brincadeira sem graça: “Olhem que obra monumental, feita por Engenheiros de verdade, nós Engenheiros Agrônomos só temos o direito de tirar a água para aguar nossas plantinhas”. Retirei-me da sala de aula e nunca mais voltei à Agronomia, o sonho mais uma vez virara devaneio.
Eis a questão existencial, ser ou não ser, Engenheiro, é shakespeareano, como de Shakespeare também é: “Há quem diga que todas as noites são de sonhos. Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. Mas no fundo, isso não tem muita importância. O que interessa mesmo, não são as noites em si, são os sonhos que o homem sonha sempre. Em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou não.”
Em homenagem ao autor, assevero em sua língua pátria. I have dreams but not day-dream. I have dreams and utopia to. Eu tenho sonhos, porém, não devaneio. Eu tenho sonhos e também utopia. Segundo Eduardo Galeano: “A utopia está no horizonte. Caminho dois passos, ela se distancia dois passos. Caminho mais um pouco, ela se distancia outro tanto. Para que serve a utopia? Para isso: para caminhar!”
Foi em busca da utopia que transformei devaneio em sonho, ingressei na UNIFOR, graduei-me em Engenharia Civil e embora não a exercendo, o sonho está parcialmente realizado. Já casado e com quatro filhos, com carreira no serviço público consolidada, onde ingressei mediante concurso público realizado pelo antigo DASP, sendo Administrador, posicionado na última referência da última classe, tendo obtido todas as promoções possíveis, não posso me dar ao luxo de largar tudo para iniciar uma carreira com ganhos da ordem de 1/4 ou 1/5 do que hoje percebo a título remuneratório e sem a estabilidade, adquirida através do concurso público que prestei para estar aonde estou.
E aqui estou pela educação, a ela devo tudo o que sou e o que tenho, sou um aficionado pela educação, e como tal, um apaixonado pela economia. E para todo amante da economia, concluir mestrado nessa área é sonho a realizar, estou realizando mais um ao concluir o Mestrado em Economia. Estudar no antigo Centro de Aperfeiçoamento dos Economistas do Nordeste – CAEN, ícone tão importante, cuja sigla é mantida no hoje renovado Curso de Pós Graduação em Economia da UFC, é sonho acalentado há vários anos. Na realização de mais este sonho tive o privilégio, juntamente com meus colegas mestres, de ser aluno de renomados professores, tais como: Marcos Holanda, Flávio Ataliba, Jair do Amaral, Teles da Rosa, Bosco de Almeida, Ronaldo Arraes, Paulo Neto e Emerson Marinho, aos quais muito devemos pelas aulas dadas com maestria, repletas de conhecimentos, muitos dos quais já vários de nós os estamos a utilizar em nossas lidas diárias, quer seja em Empresas, Bancos, Universidades e no Setor Público, como é o meu caso.
No meu caso específico este Mestrado teve, ainda, um outro efeito colateral positivo. Ao elaborar a minha tese, para a qual contei, na banca examinadora, com o concurso de dois outros excelentes professores, Almir Bittencourt, de quem já havia tido aulas no Curso de Especialização em Planejamento e Desenvolvimento Econômico e Francisco Soares, tive reacendido o sonho de ser Engenheiro. A tese, cujo orientador foi o Professor Bosco, a quem credito todo o mérito se o trabalho estiver bom, pois em nenhum momento me senti desacompanhado, tem por título: A Indústria da Construção Civil no Brasil: importância, padrões de produtividade e convergência. Nela foi mostrada a importância da construção civil em todos os seus segmentos e me levou novamente a sonhar em construir, criando ambientes de convivência, de recuperação, de comercialização e de educação, na concretização de projetos de residências, de hospitais, de praças de comércio, lojas e mercados, de escolas e universidades. É sonho nobre. Quem tem sonho nobre tem obrigação de perseguir sua realização. É o que farei. Que Deus nos abençoe a todos, muito obrigado.
